“Como incorporadores, temos o papel de fazer com que a construção civil melhore a cidade”.  Essa afirmação feita pelo empresário catarinense Marcelo Gomes sintetiza bem o que vem sendo feito à frente da Cidade Pedra Branca. Em uma área de fazenda de 250 hectares, aos pés do Morro da Pedra Branca, na cidade de Palhoça (SC), na Grande Florianópolis, a família Gomes ingressou no mercado de incorporação imobiliária com o lançamento de um loteamento residencial unifamiliar em 1999. Na expansão do bem-sucedido empreendimento, nos anos seguintes, os visionários empreendedores agregaram ao projeto conceitos até então pouco conhecidos no Brasil, como placemaking, novo urbanismo e cidade para pessoas. O resultado foi a reformulação da ideia original e a criação de um bairro-cidade que é, hoje, referência internacional de planejamento urbano sustentável.

O processo de transformação, as pesquisas realizadas, o método colaborativo de desenvolvimento do projeto, a gestão de conflitos e os erros e acertos na consolidação do empreendimento foram alguns dos assuntos tratados por Marcelo Gomes, presidente da Cidade Pedra Branca, no podcast do Movimento Somos Cidade. Apresentado por Felipe Cavalcante, coordenador do movimento, o programa traz um conteúdo rico e repleto de dicas importantes para inspirar os incorporadores brasileiros.

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Pensamento de engenheiro, visão de empreendedor

Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Marcelo Gomes é também formado em Administração pela FGV/Sociesc. E é quem está à frente da Cidade Pedra Branca e de outros empreendimentos inovadores em Florianópolis, como o complexo multiúso Passeio Primavera, o mercado gastronômico Mercadoteca Floripa e o Centro de Inovação da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE). O pensamento lógico da engenharia e a visão empreendedora herdada do pai, Valério Gomes, e do avô, Cesar Gomes – responsáveis por negócios em diversas áreas em Santa Catarina – são alguns dos atributos que fazem de Marcelo uma das principais lideranças do setor no país.

“Tive a sorte de poder trabalhar em diversas empresas da família e a Pedra Branca foi a minha paixão, até pela relação com o meu propósito. Quando eu era criança, adorava montar Lego e jogar SimCity”, revelou ele a Felipe Cavalcante no podcast do Somos Cidade. Seu interesse foi estimulado pelo engenheiro civil Dilnei Bittencourt, diretor da Pedra Branca à época e atual consultor do empreendimento. “Ele era o desenvolvedor da Pedra Branca, junto com o Valério, meu pai, e foi meu padrinho. Uma das razões que me levou a estudar engenharia e a me aprofundar nesse assunto foi esse contato com ele”, conta Marcelo. Ele ressalta que outras referências importantes para sua formação foram os professores da UFSC, em especial Roberto Lamberts, mestre e doutor em Engenharia Civil, referência nacional em sustentabilidade e certificações “verdes”. “Fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre esse assunto, como o case da Pedra Branca e a gente foi se apaixonando por esse tema”, acrescenta. E ter um propósito era uma prioridade. “De todos os nossos negócios, no da Pedra Branca é muito claro esse propósito: você pode melhorar a cidade para as pessoas através do empreendimento imobiliário. É muito claro o quanto a gente entrega para a cidade – somos um empreendimento imobiliário irradiando coisas boas ao seu redor”, enfatiza o empresário, referenciado o conceito de “acupuntura urbana”, propagado por Jaime Lerner, considerado um dos principais urbanistas do país.

Placemaking como motivação

Na entrevista a Felipe Cavancante, Marcelo Gomes conta que o processo de expansão começou a ser delineado a partir do sucesso de vendas da primeira etapa, a do loteamento tradicional implantado no entorno do lago existente e do campus da Unisul – universidade convidada para ser a âncora do empreendimento. “Foram dois mil lotes vendidos, quase um por dia”, diz Marcelo. O próximo passo seria a ocupação da “área de várzea” da antiga fazenda. “Era o pior lugar: mais baixo, mais úmido e não tinha tanto atrativo”, descreve. Na discussão sobre o que poderia ser planejado para o local, eles decidiram ir a fundo em busca de um conceito, de um propósito. “Fomos atrás do que havia de mais moderno, e um dos livros que o Valério leu e mudou a cabeça dele foi ‘Place Making: Developing Town Centers, Main Streets, and Urban Villages’, de Charles Bohl. O autor citava o Congresso para o Novo Urbanismo (CNU) como uma importante referência, e decidimos ir nesse congresso”, conta.

O ano era 2005. “Aí foi quando ‘caiu a ‘ficha’. Quando sentamos no congresso, e ouvimos a turma toda falando em mistura dos usos, que a cidade tem que ser policêntrica, ao alcance de uma caminhada”, explica Marcelo. E eles agiram rapidamente. Abordaram o arquiteto Andrés Duany, sócio da DPZ, cofundador do movimento do novo urbanismo nos Estados Unidos, logo após a palestra dele e apresentaram o projeto da Cidade Pedra Branca a ele. “Nos ajude, então, a redesenhar esse projeto. E eles vieram fazer esse processo da charrete”, recorda, referindo-se ao processo colaborativo de desenvolvimento de projetos. “Fizemos a primeira charrete. A intenção era misturar os arquitetos da DPZ, Max Rumis e Marcela Leiva, que trabalhavam no escritório deles em Miami e eram argentinos e sete escritórios de arquitetura locais, os melhores da nossa região, e mais o Jaime Lerner, de Curitiba”, detalha Marcelo. Após algumas tentativas mal sucedidas, a charrete revelou-se um sucesso. “O desenho urbano ficou pronto, ficou muito legal. Nas palavras de Jaime Lerner, um ‘casco de tartaruga’, com as quadras, as mistura dos usos, em um diâmetro de 500 metros. E aí começou a nova fase da Pedra Branca”, diz.

De Cidade Universitária Pedra Branca, o empreendimento apresentou-se ao mercado, em 2010, como a Cidade Sustentável Pedra Branca. “Querendo dizer urbanismo que mistura as pessoas e as faz andar mais a pé, pois tudo está ao alcance de uma caminhada: estudar, trabalhar, morar e se divertir. Urbanismo que privilegia o pedestre e, ao mesmo tempo, teria construções de alta performance, com tecnologia para economizar água, economizar no condomínio – que são sustentáveis”, acrescenta.  Naquele ano foi lançada a primeira quadra, com 200 apartamentos “no meio da várzea da fazenda”. “Conversamos com alguns incorporadores e nenhum tinha coragem de fazer um prédio de 12 pavimentos no meio do pasto. Então, buscamos um sócio e achamos um muito legal, o Oscar Americano. Ele trouxe a expertise que tinha da Quinta da Baroneza, do Shopping Villa Lobos e de outras experiências boas de São Paulo e nos deu coragem”, revela Marcelo. As entregas começaram a acontecer e outras duas quadras foram lançadas. “Começamos a colocar prédios mistos de verdade, com lojas no térreo, torres de escritórios, residência, tudo misturado. A gente percebeu que, ao entregar a calçada do prédio, nesse placemaking, estava faltando alguma coisa e a gente não sabia exatamente o que era”, confessa.

A criação de uma cidade para pessoas

Nesta etapa, a leitura de um segundo livro foi determinante: “Cidade para pessoas”, de Jan Gehl. “Quando lemos aquele livro, a gente se apaixonou. E tivemos a sorte de que houve a Rio + 20 e ele foi lá dar uma palestra. Depois do ‘show dele’, eu e o pai fomos falar com ele e dissemos: ‘temos um projetinho lá em Palhoça, no sul do Brasil. Vocês não podem nos ajudar? Estamos precisando dar um ‘molho’ no nosso espaço público’. A gente acreditava que o nosso urbanismo estava muito bom, a mistura dos usos estava bem feita, mas que faltava esse cuidado com o espaço público”, diz Marcelo. O arquiteto dinamarquês aceitou o desafio e a Gehl Architects foi contratada para prestar consultoria ao projeto.

“Nesse momento viramos uma terceira chave. Nunca deixamos a ‘universitária’, a ‘sustentável’, mas fomos somando e entramos numa fase de falar em pessoas”, destaca. Então, a rua principal da nova etapa foi refeita. “Foi a nossa maior loucura em termos de investimento. Graças a Deus o Oscar Americano estava conosco, porque ele tinha um pouco mais de fôlego”, diz. As palmeiras imperiais que ladeavam a via foram transferidas para a praça; árvores nativas foram plantadas no local; a largura da via foi reduzida de oito para cinco metros e as calçadas foram alargadas e niveladas com a rua. “Queríamos criar a primeira rua compartilhada do Brasil. E criamos”, afirma. Assim surgiu o Passeio Pedra Branca, o shopping a céu aberto da Cidade Pedra Branca.

Parcerias e diversificação de usos

A partir de então, uma nova preocupação envolveu os empreendedores. “Um bairro de longo prazo, planejado para 30, 40 mil pessoas morando lá, precisava de trabalho. E nossa discussão foi: como a gente atrai PIB para cá?”, revela. A Pedra Branca, então, fundou o Instituto de Apoio à Inovação, Incubação e Tecnologia (Inaitec), em parceria com a Associação Comercial e Indústria de Palhoça (ACIP) e a prefeitura de Palhoça, para atração e fomento de empresas do setor. E incentivos fiscais passaram a ser oferecidos também para a cidade atrair empresas.

Nesta mesma época, Marcelo estava envolvido com o projeto de criação do Centro de Inovação da ACATE no complexo Passeio Primavera, em Florianópolis, e participou de uma missão ao Vale do Silício para conhecer de perto a dinâmica do lugar e a dificuldade que as empresas tradicionais, instaladas em áreas mais afastadas dos centros urbanos, enfrentavam para atrair talentos. “Percebemos que tínhamos uma super oportunidade porque o nosso conceito é exatamente o que essa gurizada está querendo, que é a ‘cidade de 15 minutos’. Assim, mudamos o discurso para captar essas empresas e começamos a assinar ‘Pedra Branca Cidade Criativa”. Era a nossa quarta fase, com a evolução dos conceitos”, revela.

Questionado por Felipe Cavalcante, coordenador do movimento Somos Cidade, sobre os projetos para os próximos anos, Marcelo contou que, para o futuro, os planos são de expansão desse modelo de bairro-cidade, premiado e reconhecido internacionalmente, por Santa Catarina. “Fizemos uma discussão recente e reestruturamos a empresa”, disse ele no podcast. A administração da Pedra Branca passou a ser 100% familiar e a decisão foi por definir Santa Catarina como campo de atuação. “Vamos ficar onde dá para ir e voltar de carro”, brinca. Assim, já estão definidas iniciativas em Criciúma, no Sul do Estado, em Joinville, no Norte, em Florianópolis e em São José, cidade vizinha de Palhoça – todas em fase de concepção de projetos. “Queremos fazer os melhores bairros de Santa Catarina. Essa é a nossa visão”, pontua Marcelo Gomes.

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