Livro fundamental para a disseminação da teoria do third place (terceiro lugar) nas cidades, “The Great Good Place”, lançado pelo sociólogo urbano Ray Oldenburg em 1989, terá uma nova e ampliada edição, como adianta recente matéria da Bloomberg. Para Oldenburg, o third place é o local onde as pessoas socializam, se divertem e trocam ideias com amigos e estranhos que conhecem nesse ambiente e no qual passam o tempo quando não estão em suas casas (que seria o primeiro lugar) e seus trabalhos (o segundo).

O sociólogo defende que uma vida saudável precisa de um equilíbrio entre todas as pontas desse tripé. Cafés, bares, academias, livrarias, restaurantes, igrejas e espaços públicos são, na visão dele, fundamentais para as conexões sociais, a inclusão, a democracia e para a construção de comunidades. Segundo Oldenburg, o caráter de um terceiro lugar é definido, especialmente, por sua clientela regular e é marcado por um clima lúdico que contrasta com o envolvimento mais sério que se costuma ter nas demais esferas. “Embora um tipo de ambiente radicalmente diferente de uma moradia, o third place é notavelmente semelhante a uma boa residência no conforto psicológico e apoio que oferece. Ele é o coração da vitalidade social de uma comunidade”, descreve o sociólogo no perfil traçado pelo Project for Public Spaces (PPS), que reúne informações sobre a trajetória profissional do doutor em Sociologia pela Universidade de Minnesota.

Com o mundo ainda enfrentando os impactos da Covid-19, que levou a inúmeras mudanças de hábitos e cuidados e resultou no fechamento ou no funcionamento com restrições de muitos desses locais de convivência, o conceito estabelecido por Oldenburg volta a ganhar visibilidade nos debates sobre o destino desses espaços no pós-pandemia e sua relevância para a retomada das relações sociais. A reportagem da Bloomberg destaca pesquisas sobre como o acesso a bares, restaurantes e praças, por exemplo, melhora a qualidade de vida e fortalece os laços comunitários. Aponta também que a ausência prolongada nos terceiros lugares pode ter um “efeito cascata sobre onde e como nos reuniremos após o coronavírus”.

Apesar das alternativas desenvolvidas nos meios digitais em 2020, como os encontros e festas via Zoom e outros sistemas, as aulas de yoga virtual e os múltiplos cursos disponibilizados, elas não conseguiram reproduzir o apelo dos third places físicos. “Para alguns, a promessa de regressar a esses ambientes é um sinal de normalidade há muito esperado”, analisa o texto. Além das consequências econômicas do distanciamento social e das exigências sanitárias, a impossibilidade de frequentar terceiros lugares reflete na formação de bolhas, nas quais as conversas se concentram com quem tem as mesmas opiniões e crenças, afastando a diversidade dos diálogos informais que aconteciam na fila de entrada de um show, na mesa compartilhada de um café e em outros cenários que eram corriqueiros até 2019.

No entanto, essa necessidade de contato humano acabou criando novos terceiros lugares em muitas localidades, que fecharam ruas para os veículos e as abriram para os pedestres). Uma das iniciativas nesse sentido apresentada pela Bloomberg é o Chicago Alfresco, um programa da cidade norte-americana que incentiva as comunidades a planejarem espaços ao ar livre para a realização de jantares, atividades culturais e artísticas, caminhadas e passeios de bicicleta. Outra ação salientada é a Washington Trust for Historic Preservation, uma organização sem fins lucrativos do estado de Washington que apoia a preservação de thrid places por meio de doações.

Sala de estar da sociedade e as barreiras atuais para sua manutenção

Por seu caráter agregador e acolhedor, os terceiros lugares já foram comparados por diferentes estudiosos a uma sala de estar das comunidades, como assinala artigo dos integrantes do Instituto Brookings, Stuart Butler e Carmen Diaz. A entidade sem fins lucrativos baseada em Washington D.C. conduz pesquisas em busca de novas propostas para solucionar problemas sociais enfrentados local, nacional e globalmente. Mesmo com um importante papel na consolidação de relações entre as pessoas e com os ambientes que frequentam, os third places enfrentavam riscos antes mesmo da pandemia, como explica o texto.

Conforme os autores, o aumento do número de norte-americanos que passaram a socializar somente pelos canais virtuais associado à elevação dos preços dos imóveis em muitas cidades, que faz com que muitos moradores desloquem-se para regiões distantes dos espaços de reunião e dificulta a conservação de pontos de encontro de baixo custo, são alguns dos fatores que fazem com que os terceiros lugares estejam sendo perdidos nos Estados Unidos. Butler e Carmen disseram ainda que os subúrbios, em geral, negligenciam a relevância desses ambientes. Eles comentam também que, para Ray Oldenburg, o principal culpado por esse panorama é o “zoneamento não funcional”, que impede a instalação de comércio em áreas residenciais, obrigando muitos cidadãos a usarem o carro para resolverem suas distintas demandas.

Em entrevista divulgada pelo site Steelcase, o sociólogo ponderou que uma localidade habitável deve ter as “necessidades diárias (de um indivíduo realizadas) a uma curta distância”. Ele contou ainda que ao se mudar para a segunda casa em Pensacola (Flórida, EUA) sentiu as dificuldades de morar onde havia uma rígida divisão do uso do solo e não possuía third places. A solução encontrada por ele para não perder o convívio social foi transformar sua garagem em um bar, criando o seu próprio terceiro lugar para receber professores universitários, vizinhos e familiares.

Outra observação feita por Butler e Carmen é que uma rede forte de third places nos municípios e nos bairros suburbanos poderia ajudar a “construir conexões sociais e econômicas vitais para sair do contexto de pobreza que atinge algumas dessas localidades”. Oldenburg já declarou que, “na ausência de uma vida pública formal, a vida torna-se mais cara. Onde os meios e facilidades para relaxamento e lazer não são compartilhados publicamente, eles se tornam objetos de propriedade e consumo privados”, como frisa o perfil do sociólogo feito pelo Project for Public Spaces (PPS).

O declínio de muitos terceiros lugares é ressaltado também pela reportagem da Bloomberg, que traz um levantamento de 2019 sobre a diminuição de centros religiosos e recreativos dos Estados Unidos que vem ocorrendo desde 2008, quando teve início um grande período de recessão. Ouvida pela matéria, a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Michigan, Jessica Finlay, teme que a Covid-19 seja a “sentença de morte” para diversos third places. “Estou preocupada que, em longo prazo, nossas comunidades serão completamente diferentes”, avalia.

Caminhos para a revitalização de terceiros lugares

Planejadores urbanos que buscam consolidar bairros estão se concentrando no “papel crítico” que os third places podem ter no fortalecimento do senso de comunidade, como enfatizam Stuart Butler e Carmen Diaz. Em razão disso, muitas ações que estão em andamento para revigorar bairros norte-americanos incluem o desenvolvimento de terceiros lugares, principalmente de espaços públicos, para tentar reduzir as diferenças sociais existentes, acrescenta o texto. Uma referência dada por eles é o Outbox, instalado pela cidade Silver Spring, em Maryland. O ambiente para trabalho ao ar livre conta com eletricidade, wi-fi gratuito, mesas e assentos para serem usados pelas pessoas durante o verão. Projetada por alunos do Departamento de Tecnologia Aplicada do Montgomery College, a iniciativa revitaliza uma rua comercial e um distrito de artes e entretenimento.

Estabelecer condições mais hospitaleiras para os third places é uma das opções relatadas pelos pesquisadores para recuperar terceiros lugares desocupados ou defasados. Eles complementam que a adoção de um zoneamento misto é essencial para que esses ambientes prosperem, assim como a definição de rotas de ônibus e paradas estratégicas para acessar esses locais e a oferta de Internet grátis. Em conjunto, essas medidas podem transformar muitos espaços em pontos de encontro de pessoas de diferentes idades, raças, crenças e condições econômicas, destacam Butler e Carmen. A readequação dos lugares por meio da arquitetura e alterações no design também podem impulsionar as relações sociais e a interação entre vários grupos. “Os thrid places podem fazer muito para ajudar a estabilizar as comunidades e reduzir os problemas sociais”, concluem os autores do artigo.

Ray Oldenburg, na entrevista veiculada pelo site Steelcase, apontou algumas das características mais marcantes da sua teoria, como o seu aspecto de promoção da unidade na vizinhança, da democracia – por meio da disponibilidade de locais para os cidadãos se encontrarem, conversarem e debaterem suas opiniões – e da geração de capital social, com indivíduos com habilidades e interesses distintos se conhecendo e passando a confiar uns nos outros, o que impacta positivamente na economia. Inclusive, a facilidade de pessoas encontrarem emprego por meio de conhecidos feitos nos terceiros lugares é maior do que com amigos e familiares. Ao contar com um ambiente com vida e convidativo, os thrid places também são mais receptivos aos aposentados e idosos que desejam socializar.

O termo do sociólogo vem sendo aplicado ainda por empresas que estão alterando seus espaços de trabalho para receberem melhor seus funcionários e elevarem a produtividade. Oldenburg reforçou que os negócios deveriam encorajar terceiros lugares em seus bairros, assegurando aos seus empregados um local para “escapar”. Ele pontuou que os third places, por serem utilizados por públicos distintos, são melhores para o desenvolvimento humano. “Se você tem um terceiro lugar, tem mais amigos. Você vive mais quando possui mais amigos”, salientou na entrevista. A rede Starbucks é uma das companhias que afirma estar utilizando o conceito de Oldenburg para planejar seus ambientes, como aborda matéria do MJV Innovation, consultoria em inovação para companhias. Apesar de a cafeteria anunciar que idealiza suas lojas e atendimento a partir da visão de construção de pontos de encontros, o sociólogo não vê na cadeia a criação de verdadeiros terceiros lugares, apenas um simulacro das suas ideias.

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