Que Gramado tem muito a ensinar para o Brasil em termos de turismo todo mundo já sabe. O que ninguém desconfia é que a cidade também tem muito a nos ensinar em termos de urbanismo.

Isso mesmo, os amantes das cidades têm muito a aprender com Gramado, mais especificamente com o seu centro.

Ao longo dos anos eu já estive algumas vezes em Gramado, seja a turismo, seja a negócios e tive a oportunidade de registrar vários pontos de interesse para quem sonha em tornar as cidades mais amigáveis para os pedestres.

Não existe no Brasil nada similar a Gramado em termos de sucesso como destino turístico. Não conheço os detalhes desse processo e de como eles chegaram aonde chegaram. O que sei é que todo mundo adora visitar Gramado. A cidade faz a gente pensar que está em outro pais, com seu clima frio, sua arquitetura europeia, sensação de segurança, limpeza urbana, o Natal Luz e a enorme quantidade de atrações que estão surgindo nos últimos anos, valorizando cada vez mais a experiência dos turistas.

Mas tem um ponto adicional nessa já longa lista que nunca é mencionado pelos experts como uma das razões que fazem Gramado ser tão atrativa para os turistas: o seu urbanismo.

O Primeiro ponto é a existência de uma centralidade urbana onde todos se encontram e onde existe movimento de dia e de noite. Muitos destinos maravilhosos sofrem com a ausência de uma centralidade. Alguns deles, e até mesmo grandes resorts, tentam emular a experiência através da construção de pequenas vilas, mas que dificilmente conquistam o coração dos turistas, por parecerem fake e por não terem “alma”.

Já outros destinos devem boa parte do seu charme a essas centralidades onde podem passear e todos podem ver e ser vistos. Alguns exemplos são Trancoso, Arraial D’Ajuda, Praia do forte, Porto de Galinhas, Búzios e Pipa, que são locais repletos de lojas, bares e restaurantes e onde a alta gastronomia convive com os moradores locais e seus estabelecimentos. Isso encanta os turistas, inclusive o que vão a Gramado.

Mas existem muitos outros atrativos no centro de Gramado. Andando pelo seu centro, estão lá todos os ingredientes que fazem uma cidade de sucesso: ausência de recuos entre os prédios e as calçadas, fachadas ativas, edifícios de uso misto, calçadas largas, árvores que geram sombras ao invés de palmeiras, carros estacionados na rua, ruas estreitas e com trânsito lento, cobrança pelo estacionamento em vias públicas, ruas fechadas (e cobertas) para pedestres e prédios cívicos.

Nas imagens abaixo o principal destaque vai para a ausência de recuos frontais e como isso gera fachadas ativas e “olhos nas ruas”. Os urbanistas órfãos do modernismo de Le Corbusier, e que advogam grandes afastamentos entre edifícios e entre esses e as calçadas, não conseguem entender o prejuízo que esse afastamento gera para a vida nas ruas e para a vitalidade das calçadas. As pessoas amam passear vendo lojas, bares e restaurantes ao nível da rua, ali bem pertinho. Todos os lugares que possuem grandes afastamentos são locais sem graça e não convidativos para as pessoas.

Mas além da ausência de afastamentos, também vemos nessas imagens calçadas largas, árvores que geram sombra em vez de palmeiras (apesar de estarem podadas nessas fotos) e carros estacionados em paralelo ao meio-fio, o que gera segurança para os pedestres, todos elementos fundamentais para se criar uma ambiência adequada e convidativa para as pessoas passearem sem rumo certo, com vários atrativos ao longo do caminho.

Outro grande atrativo de Gramado é a sua rua coberta. Ainda me impressiono com a quantidade de comerciantes que acham que ruas fechadas para automóveis são ruins para o comércio. Estudo após estudo em todo o mundo mostra que as vendas aumentam após o fechamento de ruas e elas viram destinos par moradores locais e para turistas, como podemos ver na famosa rua coberta de Gramado.

Já os urbanistas dos órgãos municipais e os engenheiros de trânsito se preocupam demasiadamente com os automóveis, onde eles vão estacionar e com a possibilidade do trânsito ficar ainda mais engarrafado.

A questão é que a vida na cidade é muito mais complexa e dinâmica do que imaginamos. Quando uma rua é fechada, isso estimula o transporte coletivo, táxi, uber, bicicletas em detrimento do transporte público, fenômeno conhecido como “evaporação do tráfego”. O fato é que nunca as previsões catastróficas de piora do trânsito em uma região que tenha uma rua fechada aos automóveis se concretiza, como podemos conferir no maior exemplo de todos, o fechamento da Times Square em Nova York.

Além disso, vejam o quanto ganha a cidade quando as ruas são resgatadas dos automóveis para os pedestres. Essa é a rua coberta de Gramado. Por incrível que pareça, essa outra foto é da mesmíssima rua. Qual você prefere?

Outro ponto interessante que se encontra em Gramado são as soluções para estacionamento que existem por lá. Existe no mundo todo uma visão de que o estacionamento em vias públicas deve ser gratuito, o que não poderia estar mais errado. A gratuidade no estacionamento em vias públicas funciona como um incentivo e subsídio aos automóveis e ao transporte individual. Porque eu iria para o trabalho de transporte público ou soluções como Uber, Táxi e bicicleta se eu posso ir no meu carro e estacioná-lo gratuitamente, sendo muitas vezes até mais barato me movimentar assim?

Além disso, as grandes exigências de vagas para estacionamento encarecem demais a construção de edifícios privados, comerciais e públicos e tornam as cidades mais feias. Nos EUA isso se tornou uma chaga, com seus grandes pátios de estacionamento que tiram qualquer senso de urbanidade das cidades e repelem os pedestres.

O que eu mais achei interessante em Gramado do seu sistema de gestão e cobrança de estacionamentos nas ruas. Em toda rua do centro tem um parquímetro onde você pode pagar pelo estacionamento de acordo com o tempo que irá passar estacionado. O sistema é todo automatizado e você pode pagar com cartão de crédito nos parquímetros ou baixar o aplicativo da empresa Rek Parking (https://rekparking.com.br).

Nas ruas também existem “cobradores” da empresa que fiscalizam os automóveis e que podem orientar e também receber os pagamentos. Isso teria que ser levado para todo o Brasil. E o mais bacana é que todas as vagas de estacionamento do centro de Gramado são numeradas, permitindo o controle.

Outra coisa que me chamou a tenção foi a existência de um estacionamento subterrâneo embaixo de uma galeria de lojas que possui um supermercado.

Ainda na questão da mobilidade, temos uma solução de “Traffic calmig”, mesmo que pontual, ligando a rua coberta ao Palácio dos festivais, Nesse espaço a rua é elevada para a mesma altura da calçada e a superfície do pavimento sinalizando que ali a prioridade é o pedestre, conforme imagem abaixo:

Outro ponto fundamental para a segurança e vivacidade das cidades é o uso misto das edificações, com comércio e serviços no andar terreno e apartamentos residenciais nos andares superiores, gerando entre outras coisas os famosos “Olhos nas ruas” que aumentam muito a sensação de segurança.

Por fim, ainda encontramos no centro de Gramado prédios cívicos, como a Catedral de Gramado e a própria Prefeitura.

Tendo presenciado tanta coisa bacana no centro de Gramado, fiquei curioso para saber se essas características tinham sido casuais ou planejadas e, especialmente, como a cidade a via e se planejava a sua expansão e fortalecimento para toda a cidade.

Para obter as respostas, entrei em contato com Daniel Caporale e Márcio Ribas da SG Urbanismo Inteligente, urbanistas baseados em Gramado e que também atuam em outros estados do Brasil.

Eles me deram uma aula sobre o urbanismo de Gramado e as discussões em curso para o novo Plano Diretor do município que está em discussão e prestes a ser votado pelo legislativo municipal.

Infelizmente, pude perceber que algumas das características que mais me encantam no centro de Gramado, não são tão bem percebidas pela comunidade local, como a ausência de recuos. Conforme explicado por eles, as exigências de recuos continuarão, mas como foi percebido que aquele espaço de ninguém entre a edificação e a calçada acabava sendo utilizado ilegalmente pelos mesmos, isso agora vai passar a ser permitido.

Como o objetivo de preservar as paisagens naturais, a taxa de ocupação também será reduzida em 20%, aumentando ainda mais os recuos entre os prédios.

Apesar da tentativa de criar uma região prioritária para os pedestres nos três quarteirões ao redor da Avenida Borges de Medeiros, os comerciantes foram contra a iniciativa com o velho argumento de que os carros precisam parar na porta da loja. Mesmo com a experiência da rua fechada ali do lado mostrando o quanto os espaços para pedestres são positivos para o comércio local.

Conversamos ainda sobre vários outros pontos interessantes sobre o novo Plano Diretor de Gramado, mas que para essa discussão não são tão relevantes. Profundos conhecedores do urbanismo e das cidades, Caporale e Ribas têm a clara visão de que no fim das contas a legislação urbanística precisa levar em consideração o que a comunidade quer para sua cidade. Eles mesmo têm compreensão clara de que alguns pontos poderiam ser diferentes e melhores para as cidades, como o fato de que edifícios mais próximos das calçadas geram cidades mais vibrante, porém quem tem a última palavra são os cidadãos.

De minha parte, fica a impressão que dificilmente teremos outra “Cidade-fantasia” em Gramado, que é como algumas pessoas chamam pejorativamente o centro de Gramado. Os principais elementos para isso não estarão previstos na legislação urbanística.

Acho que muitas pessoas acreditam que a “Cidade-fantasia” é algo irreal, enquanto a minha percepção é que todos os elementos para criar essas cidades que as pessoas adoram são amplamente conhecidos e fáceis de aplicar, conforme a lista que fiz no início desse texto: ausência de recuos entre os prédios e as calçadas e entre os prédios, fachadas ativas, edifícios de uso misto, calçadas largas, árvores que geram sombras ao invés de palmeiras, carros estacionados na rua, ruas estreitas e com trânsito lento e prédios cívicos, com as ruas fechadas sendo um interessante bônus.

O problema é que legislação brasileira é inteiramente baseada em conceitos ultrapassados do modernismo que acabaram com a vivacidade das cidades e que já provaram seus péssimos efeitos.

Portanto, voltando ao tema desse artigo, do que o Brasil pode aprender com o urbanismo de Gramado, ficam duas lições. A primeira é que já soubemos fazer cidades no passado e a segunda é que esquecemos de como fazê-las.

Uma pena, mas quem sabe no futuro não reaprenderemos a arte de construir cidades que foi esquecida nos últimos 100 anos. Quem sabe?

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