A aposta da capital francesa nas bicicletas como peças-chave para o futuro da mobilidade urbana ganhou um novo impulso no final de outubro deste ano com a divulgação do Plano Velo – Ato 2 realizada pela prefeitura da cidade. Prevista para ser implementada entre 2021 e 2026, a iniciativa fortalecerá o ecossistema de ciclismo de Paris a partir da construção de mais ciclovias, oferta de estacionamentos seguros para bikes, atividades educativas e de incentivo ao uso desse transporte sustentável e da qualificação das conexões entre a área central e os bairros mais distantes e os demais municípios da região metropolitana. A meta é deixar a localidade 100% preparada para quem pedala, como adianta o governo de Anne Hidalgo.

Para aumentar ainda mais a presença das bicicletas na cidade, foram destinados para essa etapa do projeto recursos na ordem de 250 milhões de euros, que se somam aos 150 milhões de euros aportados na primeira fase do Plano Velo, que ocorreu de 2015 a 2020, como detalha a administração pública. “Paris está expandindo drasticamente sua rede de ciclovias separadas (protegidas dos carros) e de vagas de estacionamento como parte de um novo investimento maciço”, reforça a reportagem da Bloomberg. A atualização da infraestrutura de ciclismo pode transformar o município em um dos mais amigáveis para as bikes no mundo, aponta a matéria.

Com a concretização das ações propostas, a capital junta-se a lugares como Amsterdam e Utrecht (Holanda) e Copenhagen (Dinamarca), que promoveram mudanças significativas em suas ruas e políticas de estímulo aos deslocamentos de bicicleta e são vistos como exemplos a serem seguidos, como já mostramos aqui no portal do Somos Cidade. Nos últimos anos, Paris viu crescer consideravelmente o número de pessoas que utilizam esse meio de transporte para seus trajetos rotineiros, cenário esse que foi potencializado a partir da pandemia de coronavírus. Em 2021, a localidade francesa contabilizava cerca de 1 milhão de viagens de bike feitas diariamente, pressionando a estrutura existente e demandando melhorias, como salienta o texto da Bloomberg.

Um dos objetivos do segundo ato do Plano Velo, conforme a prefeitura, é agregar 180 quilômetros de novas ciclovias seguras (que são aquelas com elementos físicos para a separação dos veículos) e 130 quilômetros de ciclofaixas (que são os trechos marcados somente pela pintura do asfalto) aos mais de 1 mil quilômetros de vias para as bicicletas já disponíveis em 2021. Além disso, os 52 quilômetros provisórios de “coronapistes”, pistas que foram abertas durante as restrições da Covid-19 e a diminuição da quantidade de passageiros permitidos no transporte público, passarão a ser permanentes. Com isso, o governo municipal pretende desenvolver outras rotas para bikes dentro de capital e aperfeiçoar a sua ligação com toda a área metropolitana.

Mais vagas de estacionamento para bikes

Uma das medidas que será adotada pela administração local para levar mais pessoas a pedalarem é a criação de novos estacionamentos para bicicletas na cidade. Serão 30 mil vagas instaladas em espaços públicos, incluindo 1 mil arcos para prender as bikes de carga, e 40 mil pontos seguros colocados próximos a estações ferroviárias, descreve a reportagem da Forbes. A expectativa é que outros 50 mil estacionamentos sejam implementados pelo setor privado, como empresas e condomínios comerciais e residenciais, por meio de doações e incentivos municipais, afirma a matéria.

Atualmente, a capital conta com 60 mil aros para guardar as bicicletas espalhados por Paris e a intenção da prefeitura é chegar a mais de 130 mil novos lugares até 2026 e, assim, resolver uma das necessidades identificadas junto àqueles que ainda não optaram pelo ciclismo: o medo de terem seus equipamentos roubados. Pesquisa efetuada pelo governo da cidade revelou que 81% dos entrevistados ressaltaram esse como o principal motivo para desistirem de pedalar. Em 2020, o município registrou mais de 6,6 mil reclamações dessa natureza, representando uma elevação de 7% em relação a 2019. “A oferta de estacionamento seguro é, portanto, um dos fatores determinantes para o uso de uma bicicleta como meio de transporte”, informa a administração parisiense.

O plano de mobilidade abrange também modificações na legislação, com a obrigatoriedade de disponibilizar vagas seguras para cada “nova construção ou reabilitação de edifícios privados, escritórios, estabelecimentos abertos ao público e incentivos no caso de não estar prevista nenhuma obra importante (no complexo)”, relata o texto da prefeitura. Outra novidade apresentada no projeto é a possibilidade de ter pontos provisórios para deixar as bikes para se adaptar à demanda específica de grandes eventos na capital. Para que todas as alterações sejam viáveis, haverá redução dos espaços para os carros e dos estacionamentos para eles nas ruas. A reportagem da Forbes acrescenta que o município já está removendo mais de 70% dos lugares para automóveis nas vias.

Segurança para a circulação de todos os usuários nos ambientes públicos é prioridade

As melhorias do Plano Velo – Ato 2 na infraestrutura de Paris virão acompanhadas de iniciativas para colocar a segurança em primeiro lugar, especialmente dos pedestres, “aumentando o controle da polícia sobre os ciclistas e divulgando para todos as regras de trânsito”, assinala a matéria da Bloomberg. Segundo o site de notícias, as ações são uma resposta do governo local ao fato de alguns moradores terem achado o “recente aumento de bicicletas nas estradas um pouco difícil de controlar”. Em comunicado destacado na reportagem, a prefeitura anunciou que também irá tornar as curvas mais seguras para quem pedala “em vãos compartilhados com os veículos, criando mais espaços em cruzamentos onde apenas as bikes podem parar antes de dobrar (para uma outra rua)”.

Além disso, para tentar atrair futuras gerações de parisienses, a administração pública deve investir em treinamentos para crianças aprenderem a andar de bicicleta e a respeitar as normas de circulação nas vias – qualificando a convivência entre ciclistas, pedestres, usuários do transporte coletivo e motoristas, enfatiza a Bloomberg. As mudanças envolvem ainda a alteração dos semáforos, tirando o favorecimento dos automóveis e dando preferência para os ônibus, bondes e bikes por meio de um “sistema de ‘onda verde’ (uma configuração específica de tempos dos sinais)”, explica o material publicado pelo município.

A preocupação com a educação para o trânsito e com a segurança da população está relacionada tanto à expansão da rede de ciclovias na cidade que vem ocorrendo desde antes da etapa 1 do Plano Velo como ao salto no número de pessoas que passaram a pedalar em 2020 devido aos cuidados com a saúde na pandemia. Esse incremento na quantidade de ciclistas nas ruas da capital já vinha sendo registrado mesmo quando a Covid-19 não era uma realidade, como destaca levantamento feito pela prefeitura da região da Île-de-France (Ilha de França – uma das 18 áreas administrativas do país), que inclui Paris e localidades vizinhas, e divulgado em dezembro do ano passado.

Muitos cidadãos optaram pelas bicicletas para se locomover durante as greves do transporte público, que aconteceram em setembro de 2019 e de dezembro daquele ano a janeiro de 2020, contextualiza a pesquisa. A partir dessas ocorrências, uma grande quantidade de indivíduos tornou o pedalar um hábito cotidiano e a esses novos ciclistas uniram-se muitos outros no período de agravamento da pandemia, levando à instalação das ciclofaixas temporárias, as “coronapistes”, para dar conta do volume de tráfego em duas rodas que foi gerado. O estudo do governo da Ilha de França mostra os impactos que esses trechos tiveram entre maio e outubro do ano passado na vida dos parisienses, complementa a reportagem do site do Estadão.

As “coronapistes” foram a alternativa encontrada pela administração da capital para facilitar a mobilidade enquanto durassem as proibições sanitárias para conter a disseminação do coronavírus e para oferecer uma opção mais saudável de deslocamento. O levantamento apurou que seis em cada 10 ciclistas ouvidos não usavam a “bicicleta com frequência ou utilizavam o modal como principal meio de transporte antes da abertura das pistas provisórias”.

Outros dados verificados foram o apoio de 62% dos residentes de Paris e da região metropolitana para que as ciclofaixas sejam mantidas – o que será efetivado pelo Plano Velo – Ato 2 – e que mais mulheres escolheram as ciclovias para os seus percursos, passando de 36% antes do confinamento para 41% depois. Os ciclistas, 87% dos entrevistados, indicaram ainda estarem satisfeitos com as trilhas construídas, assim como com a velocidade e fluidez das pistas e com a sensação de segurança.

Infraestrutura robusta para bicicletas contribui para a implementação do conceito de “cidade 15 minutos”

Entre as muitas transformações pelas quais a capital francesa vem passando está a reformulação do seu espaço territorial para estabelecer novas centralidades urbanas e permitir que os cidadãos possam circular entre suas moradias, trabalhos, lazer, serviços e comércio percorrendo trajetos curtos – que levem no máximo até um quarto de hora. A proposta que impactará a forma como Paris é planejada está fundamentada na visão do pesquisador franco-colombiano Carlos Moreno: a Cidade de 15 minutos.

Inspirado pelas ideias da escritora Jane Jacobs, o conceito de Moreno é orientado por quatro princípios básicos para reorganizar os municípios: ecologia, proximidade, solidariedade e participação. Esses são os balizadores para desenvolver localidades mais sustentáveis e verdes, onde os residentes podem fazer suas diversas atividades sem longos e demorados deslocamentos e que possibilitam ainda criar vínculos com os vizinhos e participar das decisões sobre os rumos de seus bairros. “Precisamos tornar a vida urbana mais agradável, ágil, saudável e flexível. Para isso, temos que garantir que todos, residam nas áreas centrais ou periféricas, tenham acesso aos principais serviços perto de suas casas”, pondera o pesquisador durante palestra no TED Talks.

A mobilidade é fator essencial para que essa cidade seja viável. Nesse sentido, as alterações definidas pelo Plano Velo – 2 vêm de encontro aos pilares do pensamento de Moreno para se alcançar essa nova maneira de viver e de se apropriar dos municípios. A qualificação e ampliação das ciclovias associadas a melhor conexão entre as regiões encurtam as distâncias e oferecem um jeito mais saudável e ambientalmente correto de transporte. Além disso, ao dar mais espaço para as bicicletas e reduzir os lugares para os veículos, abrem-se diferentes oportunidades para repensar o design dos locais públicos e redesenhar as ruas, acrescentando vegetação e iluminação às calçadas e decks para mesas e cadeiras de cafés, restaurantes e comércios, como está previsto para acontecer nas vias de Paris. 

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