Evaporação do tráfego

Apesar de já ter provas de que construir mais pistas para os veículos não resolve o problema dos engarrafamentos nas cidades, planejadores urbanos continuam a insistir nessa medida. Estudos apontam que a solução pode estar na direção contrária.

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Qual o impacto dos congestionamentos no dia a dia dos habitantes de um município? Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada no segundo semestre deste ano, verificou que 55% das pessoas têm a sua qualidade de vida afetada pelo tempo gasto no trânsito, assim como 51% declararam que essa situação traz reflexos na sua produtividade. Tradicionalmente, a forma encontrada pelas localidades para reduzir os engarrafamentos passa por criar mais faixas de circulação para os automóveis. No entanto, levantamentos atuais indicam que a resposta pode estar no caminho oposto: na retirada de lugares para os carros nas cidades.

Diminuir a área para os veículos não eleva os congestionamentos, afirmam diferentes estudos. Quando essa ação é combinada com a oferta de alternativas de transporte, como mais ônibus, trens ou metrô, ciclovias e calçadas, o tráfego evapora. Isso ocorre porque os indivíduos ajustam o seu comportamento para a nova realidade e adotam outros horários e meios, inclusive mais sustentáveis, para fazerem os seus trajetos. O trânsito é um fator fundamental na rotina dos cidadãos e influencia decisões importantes como onde morar e trabalhar. A pesquisa da CNI apurou também que 37% dos 2.019 entrevistados de 26 estados e do Distrito Federal cogitaram trocar de emprego, por outro com a mesma remuneração, somente para reduzir o tempo de seus percursos.

As dificuldades relacionadas ao transporte e aos engarrafamentos já levaram 32% dos trabalhadores a recusarem uma oferta de emprego e 10% deles a trocarem de vaga por causa do tráfego, conforme o levantamento – que foi realizado em parceria com o Instituto Pesquisa de Reputação e Imagem (IPRI). Além disso, o Brasil perde mais de R$ 267 bilhões anualmente devido aos congestionamentos, cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, segundo reportagem da Globonews. A estimativa foi feita pelo economista Guilherme Vianna, da Quanta Consultoria, em 2018, a partir da análise de informações das dez principais regiões Metropolitanas brasileiras: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Recife (PE), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Belém (PA).

Um dos estudos mais recentes, de 2022, sobre a evaporação do trânsito avaliou os efeitos da exclusão de uma ou mais pistas para automóveis em 11 vias do bairro L’Eixample, no Centro de Barcelona (Espanha), que foram modificadas durante as restrições da pandemia de coronavírus. O pesquisador de pós-doutorado do grupo de Transporte, Mobilidade e Território do Departamento de Geografia da Universidade Autônoma de Barcelona, Samuel Nello-Deakin, descobriu que houve uma queda de 23% nos níveis totais de tráfego nos trechos alterados, entre 2019 e 2021, e de 14% em relação às demais ruas do município, no mesmo período.

Ele identificou ainda que, apesar de ter ocorrido um leve incremento dos índices totais de fluxo de carros nas vias paralelas adjacentes às ruas com intervenções em comparação a todas as outras de Barcelona, de 2%, nas demais vias da vizinhança não foi registrado um crescimento representativo no movimento de veículos. Nello-Deakin defende que isso significa que ocorreu uma evaporação do trânsito nas ruas transformadas, sem que a circulação no entorno aumentasse. O redirecionamento das viagens para outras maneiras de locomoção (caminhar, pedalar ou andar de transporte público), a supressão desses deslocamentos (por causa da mudança de casa, de emprego ou o compartilhamento de automóveis) ou a escolha por rotas em outros locais sãos os motivos ressaltados pelo pesquisador para explicar o fenômeno.

Melhor qualidade do ar e menor risco de acidentes são vantagens apuradas por especialistas

O redesenho das cidades, retomando um pouco dos espaços destinados para os carros, traz benefícios que vão além da diminuição dos engarrafamentos. Um dos levantamentos mais completos e citados sobre evaporação do trânsito revisou 70 exemplos de realocação de ambientes viários, incluindo depoimentos de 200 engenheiros e planejadores de tráfego de várias nações, de acordo com artigo do TheCityFix. Desenvolvido pelos pesquisadores Sally Cairns, Stephen Atkins e Phil Goodwin, em 2001, o trabalho demonstrou que projetos bem elaborados de redução de lugares para os veículos contribuem para aperfeiçoar as condições para pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo. E isso sem elevar os congestionamentos ou intensificar outros problemas ligados ao trânsito.

Uma ressalva feita pelo TheCityFix é que os resultados variam dependendo da área investigada, das condições existentes e da forma como as iniciativas de readequação dos espaços foram planejadas e instaladas. Contudo, o artigo enfatiza que os retornos foram mais positivos que negativos, sem um “apocalipse no tráfego”. Das 57 intervenções estudadas pelos especialistas em que o trânsito não foi totalmente encerrado, 45 obtiveram queda no fluxo de automóveis e 11 tiveram incremento.

Eles concluíram que essa modificação gera menos risco de acidentes, melhora a qualidade do ar, aumenta o investimento empresarial na região alterada e fomenta um ponto residencial e de trabalho atrativo, com mais indivíduos utilizando as vias públicas. As vantagens para a saúde são destacadas também em artigo da Aliança para a Rápida Transição – uma rede de organizações internacionais que promove pesquisas e campanhas para enfrentar a crise climática. Para a entidade, a diminuição da poluição, da sujeira e dos ruídos das ruas é uma das consequências imediatas da menor movimentação de carros nos municípios.

A instituição reforça ainda que, quando maneiras alternativas de viagem estão disponíveis, as pessoas mudam rapidamente para o modo que for mais adequado para elas contornarem o problema de tráfego que aparece. Engarrafamento, greve ou bloqueio de vias são solucionados com a opção por ônibus ou trens para as distâncias mais longas e andar a pé ou de bicicleta para as mais próximas, relata o material da Aliança para a Rápida Transição, que possui mais de 100 membros e é coordenada pelo New Weather Institute.

Países reúnem diversos casos de evaporação do trânsito

Dos Estados Unidos à Coreia do Sul, passando pelas nações da Europa, os exemplos de medidas que retiraram faixas para os veículos, sem que isso representasse caos no tráfego, espalham-se pelo mundo. A transformação de Times Square, em Nova York (EUA), em 2009, talvez seja uma das experiências mais simbólicas. Desde que a localidade passou a priorizar os pedestres, os acidentes com ferimentos tiveram uma queda de 40%, conforme o TheCityFix. Já em Londres (Inglaterra), o fechamento de uma ponte bastante usada sobre o rio Tâmisa, em 2019, por causa de danos estruturais, não acabou em congestionamentos como o anunciado. Segundo a Aliança para a Rápida Transição, os patamares de poluição nos principais centros do entorno da obra foram reduzidos, apontando que havia menos carros nas vias daquela área.

Copenhagen (Dinamarca) é mais uma referência listada pela organização. A cidade vem, desde a década de 1990, diminuindo a presença dos veículos em seus ambientes urbanos, especialmente no Centro, e qualificando as alternativas de transporte público e de mobilidade ativa: caminhar e pedalar. A eliminação de vagas de estacionamento, a remoção de faixas de rodagem e outras soluções fizeram com que, em 1998, 80% de todas as viagens na capital dinamarquesa fossem feitas a pé e 14% de bicicleta, acrescenta a entidade. Outra modificação representativa foi a efetuada no distrito de Cheonggyecheon, em Seul, na Coreia do Sul, salienta artigo da Forbes: um parque linear foi idealizado, em 2006, onde antes existia uma rodovia elevada.

A publicação lembra ainda do trabalho concretizado em Auckland (Nova Zelândia), em que uma rampa de acesso a uma estrada foi alterada para funcionar como uma ciclovia. O lugar, assinala o artigo, verificou uma grande procura logo após ser inaugurado e passou a ser utilizado tanto por quem pedala como por skatistas. A implementação do estacionamento inteligente em São Francisco (EUA) é também apresentado pela Aliança para a Rápida Transição com uma ação bem-sucedida de evaporação e aprimoramento do trânsito.

De acordo com a organização, o projeto – iniciado em 2011 – conta com um sistema de monitoramento em tempo real das vagas livres de estacionamento e da cobrança desses pontos por demanda, ou seja, o valor da tarifa sobe conforme a procura por um determinado bairro cresce. Essa ferramenta possibilitou uma queda de 43% no tempo que as pessoas gastavam buscando um local para deixarem seus veículos, complementa a entidade, diminuindo a quantidade de automóveis dando voltas nas ruas e levando muitos indivíduos a optarem por outras formas de locomoção.

Se você construir, eles virão: o fenômeno da demanda induzida

A frase do filme “Campo dos Sonhos”, aqui com uma pequena mudança para o plural, serve perfeitamente para descrever como funciona o mecanismo antagônico da evaporação do tráfego: a demanda induzida. Embora seja a prática mais adotada para resolver as dificuldades impostas pelos engarrafamentos, erguer mais pistas ou vias para os carros não melhora o fluxo, pelo contrário. Outro estudo de pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona comprovou que a construção de novas ruas incrementou o movimento de veículos e não amenizou os congestionamentos, detalha o TheCityFix.

Apresentado em 2020, o levantamento compilou informações de 545 municípios europeus de 1985 a 2005 e evidenciou que a expansão da rede viária induziu a maior procura por viagens feitas de automóvel, sem ter impactos na redução dos engarrafamentos, segundo o Strong Towns e o TheCityFix. O estudo afirma que o aperfeiçoamento da infraestrutura e a rapidez nos trajetos são alguns dos motivos que fazem com que mais motoristas escolham essas ruas ampliadas para seus percursos, mesmo que eles sejam curtos. Essa decisão acaba gerando um fluxo maior e, consequentemente, novos congestionamentos.

A rodovia interestadual 405 em Los Angeles (EUA) é um exemplo de demanda induzida ressaltado na matéria do Planetizen. O projeto de expansão da rodovia custou 1,6 bilhão de dólares e demorou cinco anos para ser concluído. Os dados, de acordo com o site de notícias, indicam que os resultados para reduzir os engarrafamentos foram inexpressivos e ainda trouxeram outros problemas, como o aumento da poluição do ar e dos acidentes de trânsito. O investimento nesse tipo de iniciativa, agrega a reportagem, incentiva também o espraiamento das cidades e a maior dependência dos carros, assim como pode afetar o desenvolvimento das comunidades do entorno.

A diminuição do espaço para os veículos, reduzindo a oferta de faixas, e a cobrança de taxas de congestionamento são algumas das ações sugeridas pelo Planetizen para responder efetivamente à questão dos engarrafamentos. Controle de estacionamentos e do tráfego, zonas de trânsito limitado e serviços de mobilidade para passageiros são outras alternativas que podem auxiliar na redução dos automóveis nas localidades.

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